JUNTA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE DANÇA

Quando o mundo nos surpreendeu com uma pandemia e tivemos que ficar em casa em isolamento social, nós artistas e agentes culturais, além de repensar nossos antigos modos de produção, percebemos a nossa responsabilidade em redesenhar o nosso fazer, já que o impacto na cultura já é um dos mais profundos. O mundo muda sempre e em situações assim muda mais rapidamente e nos pede ação.

Contraditoriamente também foi o momento de colocar em prática planos e desejos que a antiga vida cotidiana não dava espaço, quando estávamos engolidos pela lógica da produção capitalista e do tempo sempre escasso. Dos encontros que a pandemia e a distância geográfica aproximaram, nasce essa parceria entre os festivais Faroffa e Junta, uma parceria a longo prazo, para pensar juntos possibilidades de colaboração e sustentabilidade, um lugar fértil de plantar ideias e realizar. Criar estratégias que vão e voltam, que sejam importantes para todos os envolvidos e que pensem nxs outrxs.

Como 1ª ação desse encontro, nós do Junta fizemos uma curadoria de obras do Piauí para a programação do FAROFFA no sofá, numa ação de apresentar outras produções e outros olhares, desfazendo as distâncias geográficas impeditivas nos eventos presenciais, e possibilitando um panorama mais amplo da diversidade da produção artística nas artes da cena do Brasil. São muitos contextos, muitas estéticas, e não dá mais para achar que a produção de uma região brasileira dá conta de representar a complexidade e a riqueza da produção brasileira.

 

O JUNTA – Festival Internacional de Dança é um festival independente criado pelos artistas Janaína Lobo, Datan Izaká e Jacob Alves em Teresina – PI, desde 2015. É um conjunto de ações artísticas e formativas, que tem a dança contemporânea como interesse e ponto de reflexão. Busca a experiência estética, o encontro e o afeto, a formação artística e de público, o fomento à dança e arte local, a criação e manutenção de redes de conexão e a ressignificação de espaços públicos. Visa “deseducar o olhar”. É um momento intenso de encontros e programação que ocupa Teresina com espetáculos, intervenções urbanas, oficinas, residências artísticas, coproduções, conversas e festinhas. O Junta acabou se ser reconhecido como uma das Práticas Inspiradoras das Artes Vivas na Iberoamérica, projeto que foi apresentado no Festival Grec na Espanha e se tornou uma publicação online.

 

+ INFO: www.juntafestival.com.br

@juntafestivalteresina

Face: JuntaFestival

 

MANGA DE VENTO

Ao receber da corpo rastreado o desafio de compor esse programa, o tempo e as circunstâncias não permitiram conter o gesto necessário, ainda que doloroso, de me curvar ao entorno. olhar com afinco e o devido cuidado as proximidades, incluindo aquelas em que, de forma privilegiada e por isso tantas vezes negligenciadas, me sinto parte. lugares de permanente criação com intensa produção que inspiram, transpiram confiança e proteção. mas de onde também se agitam as maiores inquietações e muitas outras contradições que por violenta desestabilização, se conectam em profundidade a essa nuvem de incertezas que é estar vivo. como um remédio que nos obriga a experimentar e digerir o próprio veneno. ao revisitar as geografias que hoje, na intimidade, constituem referências possíveis e imprescindíveis de vida e arte, avisto com pouca nitidez que a falta de empatia, que paira e se instala de forma disruptiva nesses dias de isolamento e mesmo alçando novos territórios, ainda mora ao lado da antiga e persistente incapacidade humana de enxergar e perceber suas diferenças. de diminuir suas assimetrias. não me surpreende que, ao final, seja justamente das artes experienciais, incluindo o teatro, a música, a dança e a performance, juntas e misturadas como devem ser numa farta e deliciosa faroffa, de onde agora sopra o ânimo para romper (respeitando todos os cuidados pandêmicos que se fazem necessários) essa clausura, e continuar, bravas e resistentes, desacomodando bordas e arestas, sangrando as margens, apontando outros caminhos possíveis de relações.

 

Em meados de 2013 surgia a mostra manga de vento. interessada na expansão do sentido do movimento, mas também dos territórios, das durações das relações que se estabelecem a partir dos circuitos de difusão das artes, em especial, das artes do corpo e do movimento. aspirávamos um programa que contemplasse do pensamento coreográfico que extrapola os entendimentos de corpo, às pesquisas que avançam naquilo que o corpo traz de mais elementar – estar em movimento – mesmo quando o movimento não se restringe exclusivamente à ordem do visível, ou do evidente. em resposta a uma forte demanda por ampliar e diversificar os circuitos de difusão, a escolha da expressão portuguesa ‘manga de vento’ interessava pela desorganização perceptiva provocada pela junção improvável, quando observamos seus substantivos de maneira isolada, mas especialmente pela vulnerabilidade dos dispositivos que ela designa, nossas conhecidas birutas. vulnerabilidade que impulsionou e permitiu a compreensão de que a orientação dos sentidos e dos esforços na criação de qualquer circuito dedicado às artes implicaria em permanentes ajustes e adaptações.  vulnerabilidade que também se mostrava avessa à ideia de apontar tendências, de circunscrever escolhas temáticas, de emparelhar circuitos, de consolidar a bola da vez, entre outras expectativas tantas vezes praticadas e sustentadas por discursos curatoriais.

 

Manga de vento é fruto de uma parceria amorosa sem limites, impulsiva, inconstante, desajustada. talvez por isso tão profícua e co criadora de tantas outras e múltiplas parcerias. da parceria entre a mostra manga de vento e a corpo rastreado viabilizaram-se a difusão de trabalhos e projetos artísticos que marcaram a memória da mostra de uma forma muito especial. da mostra segue essa vontade intempestiva de fazer, quase artesanalmente, do acolhimento um espaço de convivência íntima, cocriativa e de transformação dos olhares e pensamentos que tocam e atravessam o campo ampliado das artes. ainda não sabemos como isso vai se dar, como vamos continuar a existir. mas o convite para compor a programação do faroffa com trabalhos de goiânia e brasília inverte o fluxo habitual de difusão do manga, imprime um novo fôlego e aciona outros circuitos, desejos de troca, de circulação e ocupação de territórios, as vezes distantes ou pouco conhecidos. que tamanhas vontades de estar, criar, fazer acontecer e permanecer juntos vislumbra alternativas urgentes como essa, do faroffa que se esparrama do sofá e desbrava outros caminhos possíveis de se relacionar, de experienciar nossa necessidade incansável / insaciável de mover e deslocar sensibilidades e pensamentos...

 

Em agradecimento a todos os artistas e trabalhadores da arte que apostaram e investiram tempo, esforços e dedicação para realização das ações do manga, em especial aos que confiaram seus sonhos e trabalhos para composição desse programa. evoé e asè!

 

kleber damaso bueno

artista, pesquisador e jardineiro

professor na ufg / doutorando na unb

+ 55 62 982527447 skype kleberdamaso

 

 

TREMA FESTIVAL

Enquanto cientistas travam uma verdadeira corrida na procura por uma vacina capaz de conter a pandemia que assola o mundo, o vírus SARS-CoV 2 prossegue seu percurso infeccioso, sobrevivendo a diferentes ataques e reproduzindo-se em diferentes territórios.

Em suspensão, exercitando isolamentos e distanciamentos, somos bombardeados por narrativas que exploram desde o alto índice de mortalidade do vírus à crise financeira mundial que se avizinha, procurando sobreviver em um país as escuras, desgovernado e que tem investido ainda mais na precarização de seus artistas.

Se pensar o mundo neste momento é inevitavelmente se deparar com o vírus, olharmos para sua capacidade de mutação, de adaptação, pode nos servir como primoroso exemplo de sobrevivência. Assim tem sido nossa migração do real para o virtual. Assim tem sido a manutenção de continuidade do nosso ofício, nossa alternativa de supervivência.

Instigados estamos em poder compartilhar uma micro-curadoria de obras pernambucanas para programação do FAROFFA no sofá, uma ação que carrega consigo outras possibilidades de pensarmos o teatro realizado em nosso país, esquivando-se de olhares reducionistas, opressores e coloniais.

A cerveja está gelada, o galeto está assado, a FAROFFA temperada, o sofá estendido. É tempo de nos reencontramos.

 

O TREMA! Festival é uma ação idealizada por Pedro Vilela, Mariana Holanda e Thiago Liberdade em Recife – PE, desde 2012. Tendo a pesquisa de linguagem como foco e acreditando na construção de novas redes colaborativas, suas 06 edições anteriores reuniu mais de 60 artistas nacionais e internacionais, congregados em torno de definições curatoriais com forte posicionamento político e social.

 

+ INFO: www.tremafestival.com.br

@tremafestival

Face: tremaplataformadeteatro